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Segunda, 26 Novembro 2018 17:38

Especialistas contestam Jair Bolsonaro

Presidenciável pelo PSL opinou sobre a necessidade de acabar com o ‘coitadismo’ de nordestinos, mulheres, gays e negros

Escrito por Redação com Assessoria
Especialistas contestam Jair Bolsonaro Foto: Divulgação

O presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) chamou de ‘’coitadismo’’ as políticas de cotas. Em sua opinião, ações afirmativas – instituídas para compensar desigualdades estruturais de determinados grupos sociais –, reafirmam o preconceito e dividem a sociedade.

Ele ainda disse que a maioria dos negros que entram na universidade está ‘’bem de vida’’, portanto, a política estaria equivocada em relação a diversos segmentos. “Isso não pode continuar existindo. Tudo é coitadismo. Coitado do negro, coitado da mulher, coitado do gay, coitado do nordestino, coitado do piauiense. Vamos acabar com isso”.

Não é a primeira vez que Bolsonaro critica as cotas. Em julho, durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, ele afirmou que as cotas dividem o Brasil entre brancos e negros. Na ocasião, questionado sobre a forma que pretendia reparar a dívida histórica da escravidão, respondeu: “Que dívida? Eu nunca escravizei ninguém na minha vida”.

Negro, sociólogo, professor e pesquisador das relações étnicos raciais do Brasil, Carlos Martins, comenta esta recente opinião repassada por Bolsonaro durante a sua campanha. Martins explica que o que está muito claro na declaração do presidenciável é o campo social em que ele habita.

O sociólogo ressalta ainda que o capitão da reserva do Exército não é um sujeito de muita capacidade intelectual que lhe permita fazer elaborações complexas de entendimentos complexos sobre as relações sociais no Brasil.

“O Bolsonaro é um sujeito que padece de baixa capacidade intelectual, o que lhe coloca na incapacidade de fazer elaboração sobre problemas sociais complexos. De modo que o entendimento para essas problemáticas exige da pessoa uma capacidade cognitiva bem apurada para poder entender a dimensão dos problemas, o que não é o caso do Bolsonaro. Ele é um sujeito de capacidade intelectual medíocre”.

Outra questão que Carlos Martins julga ser importante pontuar é que a fala do Bolsonaro o coloca em um campo da sociedade, em um campo de compreensão.  O sociólogo acrescenta ainda uma breve explicação de como surgiu os problemas sobre a questão das ações afirmativas relacionados ao negro no Brasil.

“A maioria dos sociólogos brasilianistas dizia que os eugenistas faziam um entendimento do Brasil a partir das relações raciais e vão verificar que o medo de que o Brasil se tornar uma nação negra ou majoritariamente negra era grande porque isso passava, na opinião deles, a ideia de que o determinismo biológico dizia que uma raça forte era elemento determinante para construir uma sociedade avançada, desenvolvida”.

Carlos Martins continua: “A partir desse princípio de análise, eles [os eugenistas] afirmavam que a população negra era geneticamente uma população fraca e que se essa população se espalhasse no Brasil, uma vez que já havia sido abolida a escravidão, nós estaríamos condenando o Brasil a um eterno atraso em seu desenvolvimento. A solução para isso foi embranquecer o Brasil, e aí uma série de políticas do Estado são implementadas no sentido de extinguir a população negra, de modo que João Batista de Lacerda em um congresso na Europa em 1912 projeta que o Brasil em um século teria 80% da população branca, 17% indígena, 3% mestiça e 0% negra. Ou seja, em 2012 o Brasil não teria um negro. Assim, nesse período o Brasil seria uma nação desenvolvida porque a mistura das raças produziria o embranquecimento da população uma vez que o gene do branco é forte, determinante”.

Professora alerta sobre discurso hipócrita

Na opinião da professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e representante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), Sandra Lira, a declaração de Bolsonaro contra todas as políticas públicas sociais de redução das desigualdades – de gênero, raciais, sociais, regionais – demonstra que ele se opõe à democracia.

“Ele revela que, se eleito, vai desrespeitar a Constituição porque a Constituição Cidadã traz afirmações sobre os direitos individuais e sociais. Ele sempre vocifera contra tudo o que o país viveu nos últimos 30 anos. Ora, nos últimos 30 anos o Brasil viveu altos e baixos, mas viveu na democracia. É a democracia o verdadeiro alvo a ser destruído por Bolsonaro. As mulheres brasileiras viveram sob um Código Civil que as considerava seres incapazes, tuteladas até meados da Constituição de 1988. A partir daí as mulheres conquistaram sua cidadania jurídica plena”.

Para a professora da Ufal, políticas afirmativas são políticas públicas para dar oportunidades a quem nunca teve e desmascarar o discurso hipócrita da meritocracia, quando nunca existiu nem igualdade de oportunidades, nem igualdade social no país.

“O balanço atual é de que muitos avanços foram conquistados. A política de cotas aumentou em 300% a presença de jovens negros e negras nas Universidades. É apenas o início da reparação histórica devida aos povos escravizados neste país. Da mesma forma, trazer os povos indígenas para a Universidade depois de 500 anos de genocídio, saque, roubo de suas terras e destruição de sua cultura, é o mínimo como reparação social. Bolsonaro discorda de tudo isso, e chegou ao absurdo de dizer que não houve escravidão no Brasil, e que nada existe reparação a se fazer”, argumentou Sandra Lira.

Ainda de acordo com Sandra Lira, Bolsonaro se apresenta como inimigo das mulheres e junto ao ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (MDB), apresentou um projeto para proibir que o SUS forneça assistência gratuita às vítimas de violência sexual com o coquetel anti-DST/AIDS e a pílula do dia seguinte.

O presidente do Grupo Gay de Alagoas (GGAL), Nildo Correia, salienta que os brasileiros estão vivendo um momento difícil, à beira de um retrocesso, e “vendo a vítima aplaudir o jagunço e tê-lo como herói”, mesmo desmistificando a necessidade de prioridades sociais que contribuiu e contribui com o controle social.

“O povo terá o governo que merece, e se optarem em entregar o poder em mãos erradas, que aprendam com o amargo do fel, ao longo de quatro anos. Serão quatro anos de muita perseguição aos movimentos sociais. Ele já foi claro. Não entendeu o recado quem não quis”.

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