Secretaria de Segurança do Estado

O soldado A. viveu dias de apreensão às vésperas da operação conjunta das Forças Armadas e da polícia na Cidade de Deus, zona oeste do Rio, pouco antes do carnaval. Seu temor era ser convocado para atuar na própria comunidade onde nasceu, foi criado e ainda vive com a família. A., a mãe e a avó só se sentiram aliviados quando saiu a escala de serviço: o rapaz, militar há um ano, fora designado para atividades no quartel.
“Seria muito desconfortável. Tem gente que cresceu comigo e hoje está no tráfico. Não sei como ia reagir na hora H”, contou A., revelando um drama pelo qual vêm passando praças envolvidos na intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro.
Jovens como A., oriundos de comunidades pobres, que ingressaram nas Forças Armadas em busca de emprego estável e ascensão social, temem ser vistos por traficantes no papel de inimigo. Isso poderia desencadear represália para si e para parentes. Para se resguardar, quando em missões nas favelas, eles usam máscaras que cobrem o rosto inteiro – apenas os olhos ficam de fora.
“Até hoje fui poupado, eles dão preferência a pessoas de fora. Mas se tiver de ir, não vai ter jeito. Vou fazer tudo para não ser reconhecido”, disse A.. “Eu não me envolvo com ninguém, mas tenho amigo do lado de lá. Todo mundo tem. Procuro nem passar perto. Acredito na intervenção e na construção de um Rio e um País melhor se as operações forem sérias. Só não adianta fazer operação e sair. Tem de ficar”, continuou. Segundo A., é comum que informações sobre as investidas militares cheguem antes aos ouvidos dos traficantes, por causa da convivência natural nas favelas. “Eu nunca informei, mas um vai comentando com o outro, e todo mundo acaba sabendo”, explicou o jovem.
O soldado não imaginava que o cerco à Cidade de Deus antecederia a intervenção, decretada pelo presidente Michel Temer (MDB) após o carnaval, com duração prevista até 31 de dezembro. A preocupação com a situação dos jovens que servem nas comunidades já existia desde que foi decretada a operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), há sete meses. Foi quando começaram ações conjuntas entre militares e policiais no combate à violência no Rio.

Auxílio-moradia. Em janeiro, ao defender a volta do auxílio-moradia para militares, extinto em 2000, o comandante da Marinha, almirante Eduardo Bacellar Leal Ferreira, declarou que o benefício era fundamental porque as famílias do contingente empregado em áreas com tráfico “ficam vulneráveis e são ameaçadas”. O almirante também considerou que “o risco de contaminação da tropa pela proximidade com os traficantes) é grande”. A fala foi endossada pelo comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas.
Militares que participaram em 2017 de ações na Favela da Rocinha, zona sul, também temeram ser identificados. Ali, havia agravante: a comunidade era dominada por bandidos de uma quadrilha que se dividiu em duas facções diferentes – Amigo dos Amigos e Comando Vermelho – e entraram em confronto. A parcela do efetivo de moradores de lá ou de outras favelas sob o jugo de bandidos desses grupos se sentiu duplamente ameaçada. Alguns chegaram a usar máscaras com desenho de caveira, o que causou medo na população e reação nos superiores, que mandaram que fossem retiradas. “Incomoda demais (a máscara). Gera terror”, contou um morador da Kelson’s que testemunhou operações militares em sua comunidade no início da semana. Porém, diz, é compreensível que os soldados queiram se resguardar.
Uma representante comunitária da Cidade de Deus confirma que os jovens alistados no serviço militar vivem o dilema entre o dever e o risco que correm. “Os rapazes da comunidade que servem nas Forças ficam nessa tensão. Os moradores sabem quem se alistou, as mães comentam, as famílias comemoram. Com operações frequentes, muda de figura. Eles saem à paisana e trocam a roupa no quartel”, contou uma representante comunitária da Cidade de Deus.

Guerra. Liderança do Complexo do Chapadão, na zona norte, Gláucia dos Santos denunciou à Anistia Internacional o barril de pólvora que pode se tornar um confronto que divide jovens que foram criados juntos e têm armas de alto calibre nas mãos. “Estão tentando criar uma guerra nas favelas”, disse Gláucia, cujo filho de 17 anos foi morto pela polícia em 2013. “A maioria que vai para o Exército é favelada e há essa rivalidade com os que foram para o tráfico. Eles vão enfrentar o próprio povo: vão se matar.”
Fundador da ONG Rio de Paz, Antonio Carlos Costa foi um dos primeiros a chamar a atenção para a questão. “Os soldados são moradores das comunidades, e isso causa dois problemas: a possibilidade de informações sobre as operações vazarem e os jovens sofrerem retaliações, virar alvo, especialmente se houver muitas baixas. O interventor deve cuidar.”
O Comando Militar do Leste (CML) informou que já toma precauções para a segurança dos militares que moram em favelas e vai intensificá-las. Mas admitiu que nem sempre é possível alocar apenas jovens que não sejam das proximidades da área em que vão atuar. O uso de balaclavas (toucas ninjas que cobrem o rosto) é permitido. Mas o pano deve ser escuro e sem desenhos.

A intervenção federal na segurança pública no Rio de Janeiro trouxe apreensão para moradores de quase 30 cidades dos outros três Estados da região Sudeste do Brasil: São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. O temor é de que criminosos que se sintam encurralados em municípios fluminenses em que há um reforço no policiamento com tropas militares nas ruas acabem migrando para um desses outros Estados. Nesta quinta-feira (22), o ministro da Justiça e Segurança Pública, Torquato Jardim, se reunirá na capital paulista com secretários de Segurança para discutir estratégias para controlar essa debandada.

Das três unidades federativas, até agora apenas o Espírito Santo apresentou um plano de contingência para barrar possíveis migrações. “Nossos serviços de inteligência não detectaram nada até o momento, mas decidimos nos precaver para evitar que grupos criminosos se instalem por aqui”, explicou o secretário da Segurança Pública capixaba, André Garcia.

Conforme o secretário, os quase 200 quilômetros de divisa com o Rio e Minas Gerais receberão reforços diários no patrulhamento. Por dia serão mais 140 policiais civis e militares para rodovias que passam por oito cidades do Estado com o objetivo de combater principalmente os crimes de tráfico de drogas, armas e roubos de cargas. “São delitos que costumam ocorrer com maior frequência no Rio do que aqui. Com essa intervenção federal, imaginamos que poderia haver essa migração”, afirmou Garcia. Nessas cidades o clima é de preocupação, conforme fontes do governo capixaba.

Desde a conferência ECO-92, no Rio, diversas vezes houve um reforço no policiamento nas rodovias do Espírito Santo para evitar a entrada de criminosos fluminenses, mas nenhuma grande prisão ocorreu. Ainda assim, o temor persiste.

Questionadas sobre o assunto, as secretarias de Minas Gerais e São Paulo não detalharam seus planos. A secretaria de Minas informou que seu planejamento está sendo realizado em ações conjuntas que envolvem bombeiros, polícias civil e militar além dos responsáveis pelo sistema penitenciário. Nos próximos dias, o Governo mineiro deve informar como será esse plano de contenção.

Já a gestão paulista, não respondeu aos questionamentos da reportagem. Dois deputados federais que atuam na Baixada Santista, no litoral de São Paulo, informaram que solicitaram reuniões com prefeitos da região, com autoridades das polícias e com o Governo para começarem a traçar um plano local, mas ainda sem nenhuma resposta.

Na esfera federal, o Ministério da Justiça elaborou um plano de execuções para evitar essa possível dispersão dos criminosos. Segundo a assessoria do órgão, esse projeto está em execução, mas não poderia ser detalhado por questões de segurança. Ainda assim, o ministro Torquato ouvirá as propostas dos três secretários.

Em entrevista ao jornal Correio Braziliense publicada na terça-feira, o ministro afirmou que provavelmente os Estados limítrofes sofrerão o impacto da ação no Rio. “Temos de ver se vai ser marola ou tsunami. Alguma coisa vai acontecer, temos que ser realistas”, afirmou. E completou: “Quanto mais eficaz a ação no Rio de Janeiro, a marola vai crescer. O nosso trabalho é não deixar virar tempestade, jamais um tsunami”.

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